Ás vezes me pergunto porque eu parei de escrever, lembro-me que este era o meu esporte favorito na minha conturbada adolescência e que era escrevendo que eu conseguia afastar os monstros que tanto me amendrotavam, não me lembro da data exata em que eu ao invés de continuar a escrever optei por conviver com os meus monstros, maldita data... hoje quando me sobra um pedacinho de dia, preferencialmente a noite, dou aquela olhadela no meu velho diário e sinto uma falta danada de poder falar de mim mesma para mim mesma... Perdi o hábito, a prática, antes as palavras fluiam facilmente e hoje perco tempo até para decidir sobre o que falar, por falta de assunto... Bom mesmo era quando uma terrível prova de matemática era o assunto, quando o dia amanhecia chuvoso, as decepções amorosas, quando a família se reunia aos domingos para o famoso "franguinho caipira", uma página no meu diário era pequena...
Saudades de ter sobre o que falar, de achar graça nas coisas e nas pessoas (inclusive nas sem graça) e poder traduzir tudo isso em palavras... tempo que não volta mais...
Hoje cá estou eu tentando reaprender o que eu mesma com toda minha estupidez me fiz esquecer, voltar a perceber o quanto é bom perder-se entre linhas, e deixar fatos entrelinhas (esses que só você entende), enfim, é como reaprender a caminhar, em algum momento você espera que se torne mecânico.
Meu diário não só me intriga pelas coisas absurdas que um dia já tive coragem pra relatar, ele diz resumidamente tudo que vivi em um ano (especificamente o ano de 2003), alguns dias entusiasmantes outros nem tanto, meu dias datados e assinados e vou lamentar cada dia dos anos seguintes não descritos no papél, ou seja, todos, porque sei que muitos já foram e/ou serão esquecidos... Vou lamentar não lembrar dos outros dias que amanheceram chuvosos, das reuniões de domingo, dos meus outros amores, como se parte de mim não fosse deveras documentada...
Mas vou me lembar de um dia especial, 07 de fevereiro de 2011, neste dia estou revitalizando algo que eu devia se quer ter deixado adormecer, o amor pelas linhas escritas, pelas páginas de rascunho, pelos rabiscos, pela caligrafia decadente (felizmente não exibida aqui), o amor por voltar a escrever...
trecho do Meu Diário de 30 de janeiro de 2003:
"Hoje eu dividi meu dia com uma pessoa muito especial, minha irmã, bom, mãe saiu cedo para Novo Cruzeiro dizendo que voltaria a noite e pediu que a esperássemos com um pudim e pão de cebola, pai também foi para Novo Cruzeiro e eu e Nayara ficamos sós, arrumamos a casa, almoçamos lá em vó Ercília, fizemos o pudim e o pão de cebola e surpresa... mãe ligou avisando que só voltaria amanhã, comemos até falar chega, ficou tudo uma delícia..."